
Campinas, 11 de setembro de 2004
Prezado Sr. Carlos A. Nuzman,
Após solicitação do Dr. Roberto Gesta de Mello e na intenção de poder ajudar na reparação do resultado da prova da maratona nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, em que meu atleta, Vanderlei Cordeiro de Lima, conquistou a Medalha de Bronze, apresento abaixo texto referente à argumentação técnica sobre os prejuízos do acidente ocorrido na competição, como segue:
Considero duas hipóteses que acredito serem absolutamente claras para elucidar o caso da dúvida quanto à possibilidade do atleta, Vanderlei Cordeiro de Lima, ter vencido a maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas.
1)Tomando por base os tempos parciais, publicados nos websites oficiais da IAAF/Atenas e Atenas 2004, entre os km 30 e 40, trecho do acidente, o atleta V. Lima cumpria velocidade média de pouco menos de 3min02seg por km enquanto S. Baldini, de 3min por km, e a diferença entre os dois, indicada pela transmissão de tv, estava em 28seg na passagem do km 35, levando-nos a projetar que o atleta italiano, vinha diminuindo sua diferença de tempo em 2 seg a cada km. Esses tempos parciais para este trecho de 10km eram 30min14seg para V. Lima e 29min59seg para S. Baldini, ganhador da medalha de ouro. Confirmando o cálculo acima, a tv mostra que a diferença entre V. Lima e o “chase pack” (grupo perseguidor) estava em 25seg., ou seja, no local do acidente, km 36,5, S. Baldini diminuíra 3seg. para 1,5km. Imaginando que a agressão não tivesse acontecido com V. Lima, S. Baldini estaria descontando até o final da prova, considerando ainda os 6 km que restavam para seu término, 12 seg., o que deixa evidente que V.Lima venceria por 16 seg.
2) Considerando agora um trecho menor, entre o km 35 e o 40, a transmissão pela tv indicava S. Baldini com 14min39seg e V. Lima com 15min08seg, portanto corriam em diferença de 29seg. Neste caso, S. Baldini estava em velocidade de 6seg mais rápida para cada km que V. Lima, e caso não tivéssemos a agressão, os atletas se encontrariam no km 41, dada a diferença de 28seg indicada no km 35. Entretanto, considerando uma minuciosa análise do vídeo da prova em que o atleta V. Lima é agarrado no meia da rua, arrastado para a calçada, jogado ao chão e posteriormente devolvido à competição por um espectador, tendo que retomar seu ritmo e sua concentração, bem como a súbita descarga adrenérgica bloqueando seu sistema energético, acreditamos que seu prejuízo tenha sido de aproximadamente 16seg. Isto nos indica que no km 41, o atleta V. Lima estaria 16 seg a frente de S. Baldini, a 1.195 metros da linha de chegada. Para S. Baldini alcançar V. Lima seria preciso correr 13 seg por km mais rápido, velocidade muito superior aos 5seg que sua velocidade média apresentava.
Entendo ser extremamente relevante considerar ainda que, após incessante análise do vídeo, no momento do acidente, S. Baldini não tinha V. Lima em seu campo de visão, e que, subitamente, percebeu que o adversário estava muito mais próximo do que imaginava. Em corridas como esta, a motivação é aumentada quando o atleta nota que sua diferença diminui rapidamente, impulsionando sua determinação. Esta possibilidade só se concretizou pela intervenção do agressor contra o líder da prova, o que certamente favoreceu a performance de S. Baldini. Ressalte-se então que uma das motivações que levou S. Baldini ao primeiro lugar no pódio veio de um fator externo e não de uma disputa justa como é o principal propósito do espírito olímpico.
Aproveito para agradecer seu pessoal empenho em resolver esta questão que é tão nossa mas que encontrou adesão mundial em favor de Vanderlei Lima.
Estou à disposição para qualquer esclarecimento.
Atenciosamente,
Prof. Ricardo Antonio D'Angelo